COLUNA

Tatiana Paixao LÍNGUA AFIADA

Infinitivo dos verbos cai nas redes sociais

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"Se vc pude faze o favor de devolve a letra R que retiro dos verbos no infinitivo, a língua portuguesa agradece.”

Frases como essa estão se tornando comuns nas redes sociais. Não é novidade que o internetês ganhou espaço no cotidiano das pessoas. Até mesmo os que eram avessos ao mundo virtual se renderam à comunicação em rede, no entanto, ao mesmo tempo em que a internet possibilita uma cultura letrada, por nos manter informados constantemente, as redes sociais têm demonstrado grande descaso com a língua portuguesa.

José Saramago, escritor português, certa vez, referindo-se ao twitter, declarou: “Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”. Minha preocupação vai além do que pensou Saramago.

Não é a escrita abreviada - “vc”, “tb”, “pq” -, própria da rapidez do mundo virtual, mas sim o uso corriqueiro de abreviações indevidas que podem causar confusão na cabeça do receptor e prejuízo à língua portuguesa. O que tem se tornado constante é que o internauta em vez de escrever os verbos no infinitivo, escreve empregando a terceira pessoa do singular do presente, como por exemplo: “ _ Que namora?”, em vez de “ _ Quer namorar?”. 

A escrita de verbos no infinitivo sem o “R” no final, ou até mesmo sem as devidas desinências que estabelecem a terceira pessoa do singular, pode provocar muitas dúvidas e mudar completamente o sentido da informação. É o que ocorre em frases do tipo: “ _Vo competi! Vamos nada!” no lugar de: “_Vou competir! Vamos nadar!” 

O português não é um idioma fácil, em razão de muitas regras e exceções, mas muitos usuários das redes sociais parecem desconhecer regras fundamentais da nossa língua, sem atentarem para o fato de a escrita demonstrar o nível cultural de uma pessoa, alertando para o crescimento de uma população que escreve mal.

Nem os mais letrados estão livres dos “erros”, contudo, vale lembrar que verbos no infinitivo pedem a terminação “R” (nadaR, competiR, dormiR, comeR, trabalhaR) por razões semânticas e gramaticais. A supressão da letra não pode ser descuido de quem escreve.

O discurso de que “o importante é estabelecer a comunicação” não é válido, neste caso, uma vez que a ausência do “R” pode provocar muita confusão, além de o usuário do idioma acreditar que uma simples letra pode ser descartada, tornando um hábito essa forma de escrita, inclusive, fora das redes sociais. Isso é o que tem acontecido em redações de vestibulares, concursos e, até mesmo, em documentos oficiais elaborados no ambiente de trabalho, como se tem visto por aí.

Não vamos culpar o corretor ortográfico desta vez, por isso vale lembrar a existência do infinitivo quando se refere às pessoas do discurso: para eu estudar, para tu estudares, para ele estudar. Ou enquanto verbo impessoal, que não é flexionado: “para escrever melhor, precisamos praticar mais”. É preciso estar atento à forma da escrita, pois o vício de escrever errado nas redes sociais poderá refletir na vida profissional, também. Não devemos banalizar a língua portuguesa!

Se você puder fazer o favor de devolver a letra R que retirou dos verbos no infinitivo, a língua portuguesa agradece. Defenda a sua língua!

 

* Coluna escrita por Tatiana Paixao,
Tatiana Paixão é Especialista em Língua Portuguesa, graduada em Letras (Português-Inglês) e Direito. Professora de Língua Portuguesa nos cursos de Direito e Pedagogia da Universidade Estácio de Sá. Advogada.

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