OPINIÃO

Vito Diniz Vito Diniz

21 anos depois do impeachment

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Há uma grande diferença entre político preso e preso político. O primeiro cometeu algum crime, o segundo é resultado de perseguição política. Quem entende bem de prender políticos é o ditador cubano Fidel Castro, amigo pessoal de vários integrantes do PT, presos após condenação pelo Supremo Tribunal Federal, por corrupção. É o caso do Mensalão, que todos acompanham pela mídia e redes sociais.

Sempre fui muito cuidadoso ao analisar os fatos. Desde as primeiras denúncias, disparadas pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), tentei observar a cena política e a movimentação em torno do processo com certo distanciamento. Contudo, não é fácil manter-se distante de questões que dizem respeito ao futuro do país em que você nasceu e vive. Não tenho conhecimento jurídico suficiente para afirmar se as provas foram de fato contundentes para condená-los, entretanto ficou evidenciado que o julgamento foi muito mais político e moral, do que jurídico.

Repito que não tenho conhecimento jurídico e nem das peças processuais para saber se ficou de fato configurado tudo o que se disse a respeito, entretanto, ressalto não estou escrevendo um libelo em defesa dos condenados. Muito pelo contrário. Por tudo o que representaram para o povo brasileiro, como a esperança de grandes mudanças estruturais, penso que os condenados estão passando pelo que o País queria ver. Criou-se um clima de condenação antecipada, de certo, dominado pelo inconsciente coletivo da população, que é proporcional ao tamanho da decepção com os rumos tomados pela engrenagem política.

De certa forma é engraçado ver os condenados do Mensalão sendo presos. Quem deve estar sentado em frente à televisão, assistindo a tudo e dando gargalhadas é o ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Melo. Acusado de corrupção, afastado por um processo de impeachment e uma renúncia forçada, apeado do poder após dois anos de mandato, o primeiro presidente eleito pelo voto direto, no Brasil, foi alvo de investigações, denúncias e processos. Ao final acabou absolvido e retornou à política, como senador pelo estado de Alagoas.

Se o julgamento dos mensaleiros foi político, o que se dirá do “julgamento” de Fernando Collor, em 1992, o impeachment pela Câmara, aqueles discursos inflamados de deputados como Dirceu e Genoíno, “em defesa do Brasil”, “pela moralidade na política”, “pela decência”, o consequente afastamento e a renúncia. Entretanto, ao contrário dos condenados agora, Collor deixou o Palácio do Planalto em helicóptero da Força Aérea Brasileira, por incrível que pareça, de cabeça erguida, enquanto os condenados chegaram à Brasília presos, em avião da Polícia Federal. Collor jamais disse que não sabia disso, ou daquilo, e ao contrário do que muitos pensam, mandou apurar. Nada ficou provado contra ele, Alceni Guerra e outros acusados de corrupção, com exceção de Paulo César Farias, que não era integrante do governo e que comprovadamente utilizou sobras de campanha para benefício pessoal. Mas ele era o tesoureiro do partido de Collor, que se quer fazia parte da direção nacional.

Ao mesmo tempo em que não faço libelo em defesa dos mensaleiros, não o estou fazendo em defesa de Collor. Estou apenas recordando fatos e fazendo uma comparação de um momento político com o outro. Boa parte dos que foram presos agora estiveram encabeçando as acusações contra Collor. O PT foi o partido que mais cresceu desde aquele momento  - mesmo com o PSDB tendo sido governo por oito anos, e foi o partido que assumiu o protagonismo nas acusações contra o ex-presidente. Collor e Lula até se encontraram tempos depois e o atual senador, por vezes, votou em matérias de interesse do governo, no Senado. Collor, parece, superou o trauma. Agora resta saber como o PT vai reagir.

* Artigo escrito por Vito Diniz,
Jornalista

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